Apelo
"Amanhã faz um mês que a senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, com chegar tarde, esquecido na conversa da esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de dua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.
E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero da salada - meu jeito de te querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor..."
Dalton Trevisan
Senhor
Uma semana após ser expulsa da casa de minha mãe, por certos motivos, estava lá, eu, congelando em um hotel barato de Liverpool. Viajei horas e horas para honrar meu velho e desgraçado companheiro arrependimento, que me atormentava e era quase sempre mais forte que a minha pessoa. A solidão me arrepiava em parceria com o inverno rigoroso da Inglaterra, a saudade batia e fazia o coração gritar ao lembrar de alguns momentos. Tinha em minhas mãos a minha rosa vermelha, aquela que eu não largaria desde quando o conheci, desde quando um certo Senhor entrou em minha vida, e por alguns motivos quaisquer não saiu até hoje, mesmo com documentos escritos. O problema é que o coração é analfabeto...
Minha cabeça não parava de girar, minhas pernas estavam quase involuntariamente fazendo o que o coração mandava: voltar para casa. Essa vontade interna de apreciar novamente o que eu chamava de "lar, doce lar" não parava de se manifestar dentro de mim. Para o órgão que, além de bombear o meu sangue, causava dores intensas, ainda havia aquele homem que me esperaria em seus braços, que me faria entrar em sintonia com o órgão-bombeador-de-sangue dele.
Resistir a esses sentimentos tão fortes era impossível para uma pessoa tão fraca como eu. Meu corpo andou em direção ao lar, e, chegando lá, reencontrei o meu Senhor, mas era como se fosse a primeira vez. Dei um passo a frente, entrando na casa, pisei naquele carpete sujo que me fazia tanta falta, senti o aroma da casa, que, apesar de cheirar mofo, não perdeu a essência original. Os lustres, empoeirados, imploravam por uma boa faxina, que provavelmente viria de minhas mãos, após um bom assassinato de saudades do meu amor. Mais à frente, havia garrafas de uísque espalhadas pelo chão, algumas rachadas. Na janela, as violetas, que costumavam ser minhas, estavam murchas, mas ainda não secas e muito menos mortas. Abri o armário do quarto onde dormíamos e encontrei algumas roupas mofadas e muito mal cheirosas.
Naquele lugar, tudo precisava ser limpo e renovado. Porém, mais novo que a nossa Senhoridade apaixonada, impossível.
M.L.