Zé Batalha só trabalha
Zé Batalha só se esfola
Chega de levar porrada...
A canela tá inchada e o juiz não vê...
Chega dessa marmelada...
A camisa tá suada de tanto correr...
Chega de bola quadrada...
Essa regra tá errada, vamo refazer...
Chega de levar porrada...
A galera tá cansada de perder...
No país do futebol quase tudo vai mal
mas Brazuca é bom de bola, já virou profissional
Campeão estadual, campeão brasileiro
Foi jogar na seleção, conheceu o mundo inteiro
E o mundo inteiro conheceu Brazuca com a 10...
Comandando na meiúca como quem joga sinuca com os pés...
Com calma, com classe, sem errar um passe
O que fez com que seu passe também se valorizasse
E hoje ele é o craque mais bem pago da Europa
Capitão da seleção, tá lá na Copa
Enquanto seu irmão, Zé Batalha
e todo seu povão, a gentalha
da favela de onde veio, só trabalha
suando a camisa jogada pra escanteio
tentando construir uma jogada mais bonita
do que a grama que carrega na marmita
Contundido de tanto apanhar
Confundido com um bandido e impedido
Pode parar!
Sem reclamar pra não levar cartão vermelho
Zé Batalha, sob a mira da metralha, de joelhos
tentando se explicar, com um revólver na nuca:
"eu sou trabalhador, sou irmão do Brazuca"
Ele reza, prende a respiração
e lá na Copa, pênalti a favor da seleção
Bola no lugar, Brazuca vai bater
Dedo no gatilho, Zé Batalha vai morrer
Juiz apitou, tudo como tinha que ser:
Tá lá mais um gol e o Brasil é campeão
Tá lá mais um corpo estendido no chão
O país ficou feliz depois daquele gol
Todo mundo satisfeito, todo mundo se abraçou
Muita gente até chorou com a comemoração
Com orgulho de viver nesse país campeão
E na favela, no dia seguinte, ninguém trabalha
é o dia de enterrar o que sobrou do Zé Batalha
Mas não tem ninguém pra carregar o corpo
nem pra fazer uma oração pelo morto
Tá todo mundo com a bandeira na mão
esperando a seleção no aeroporto
É campeão!
Da hipocrisia, da violência, humilhação...
É campeão!
Da ignorância, do desespero, desnutrição...
É campeão!
Da covardia, e da miséria, corrupção...
É campeão!
Do abandono, da fome, da prostituição
(Brazuca - Gabriel O Pensador)