sexta-feira, 4 de maio de 2012

Angústia

"Caminhando de volta pra casa, uma velha angústia vem me tomar o peito dificultando minha respiração. Pensei que fosse só o ar úmido e pesado desse início de outono, desse frio que não é mais frio porque todas as janelas estão fechadas, não deixando o vento da mudança de clima chegar.
Era outra coisa que me incomodava. Sentia que algo único tinha que ser libertado naquela noite de sexta-feira. Foi um lampejo que teve o efeito de um relâmpago. Um estrondo nítido abriu minha cabeça e disse: hoje é dia.
Dia do quê, porra? Será que esqueci alguma data ou alguma coisa? Deixei pra trás o pen drive com algo do trabalho? Então me veio à memória minha mão colocando na mochila meus apetrechos de trabalho, notebook, fonte, mouse, caderno, caneta, lapiseira, bolsinha com o material de higiene bucal, livro, chave de casa e crachá da firma.
Só tinha deixado o trabalho e seguido em direção ao metrô. Deixado o encargo pesado que ele tem me trazido às vezes. Saber disso não aliviava em nada o peso do peito que estava sentindo. Deixava-me mais inconformado, na verdade. Essa ideia me ocorreu enquanto percorria o caminho inteiro, itinerante, sem fim, sem um itinerário definido dentro de mim. Me emputeci e resolvi andar a pé até em casa. Do metrô até em casa. Caminho não muito distante, por sinal muito esquisito, pois não é reto, aliás nenhum caminho é reto aqui na cidade, nem as grandes avenidas, então fazia muitas curvas e passava por quase-becos e ruas, mesmo sendo quase uma avenida.
Que coisa era essa que não passava? Não havia necessidade, nem desejo, nem nada… Talvez só houvesse o desejo de chegar em casa e não dizer mais nada. Não disse. Era um dia contemplativo. Fiquei perto de casa, sentado na calçada tomando cerveja e escutando a conversa dos amigos, vendo o movimento, deixar e estar. Escutar a si mesmo não tendo nada a dizer."

Texto por: Tiago Viegas poeta, escritor, pessoa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário